Os mitos e verdades de leite


Durante esses dias, eu já mandei vários e-mails e menções no twitter, perguntando o que achava sobre o artigo de 30 pontos que punham em dúvida o mais saudável que é o leite, por isso decidi opinar sobre alguns dos pontos importantes(obviamente não pude todos, já que demoraria semanas) e resumi-los para que você tenha uma fonte com veracidade com que você possa tirar suas próprias conclusões. Esta é uma afirmação parcialmente quanto associar o sangramento ao leite, eu me explico: é verdade que foi visto em crianças com anemia e aos quais é administrado ferro juntamente com o leite, não havia uma melhora na sintomatologia, no entanto, tal como podemos observar no Studies on iron metabolism **: V. Further observations on cow's milk-induced gastrointestinal bleeding in infants with iron-deficiency anemia, observamos que este fenômeno se deve à imaturidade do sistema gastrointestinal e que é apenas transitório, daí a importância de seguir a dieta Beikost em bebês. Ainda assim, não há estudos que demonstrem a certeza de uma relação direta, e tal como se fala no referido estudo se daria em crianças com anemia, cujo consumo é superior ao litro de leite por dia. Totalmente falso, não há relação entre a produção de muco e o consumo de leite. Este mito foi claramente demonstrado no item (1) no qual se estudou a 600 pacientes, concluindo que não há relação entre o consumo de leite e muco. Mesmo em doentes de Rinovirus-2 (o vírus Rinovirus é um dos agentes mais comuns da doença, a gripe não houve relação entre a ingestão de leite e o muco(2). Para este tema recomendo que você leia este artigo de João Revenga sobre o leite e muco http://blogs.20minutos.es/el-nutricionista-de-la-general/2013/09/24/los-lacteos-no-aumentan-las-mucosidades/ Falso, os derivados de laticínios, tais como leites fermentados possuem efeitos benéficos sobre a nossa flora intestinal se refere. Exemplo desta afirmação é o estudo (3), onde se observou que as pessoas que tomavam leites fermentados aumentavam os níveis de IgA (Imunoglobulina A), melhorando a resposta imune do nosso corpo. Realmente me impressionei com esta afirmação, sobretudo da parte da síndrome de intestino irritável, já que justamente uma das resenhas que fiz para o departamento de nutrição da ULL consistia na veracidade dos probióticos e derivados lácteos. Em 2013, o departamento de medicina experimentativa de McGill University(Canadá) avaliaram os efeitos dos probióticos Lactobacillus e Bifidobacterium para determinar se produziam uma variação nas concentrações de citocinas(5). Foram medidas as concentrações de TNF-alfa, IL-1beta, IL-4 e citocinas. As concentrações de lipopolisacárido reduziram-se significativamente com a administração de B. bifidum e B subesp. longum. infantis. Até mesmo as contagens celulares das bactérias Gram-negativas e positivas foram claramente atingidos pelo probiótico gerenciado. Além disso . B. longum subesp. infantis demonstrou capacidades mais altas para reduzir as concentrações de TNF-alfa (Fator de Necrose Tumoral) e para aumentar as concentrações de IL-4 . Estes achados sugerem que as bactérias probióticas específicas, tais como B. longum subesp. infantis, pode diminuir as concentrações de lipopolissacarídeo cólon, o que se traduz como uma resposta imune menos agressiva para o organismo. Outros estudos do Instituto de Agroquímica e Tecnologia de alimentos de Valência, descobriram que o co-incubação de um tipo especial de células do sistema imunológico, as células dendríticas, B. longum ES1 ou com bactérias patogênicas (enterobactérias) detectadas no trato digestivo dos celíacos, produzem efeitos opostos(6). No caso das enterobactérias induzem alterações na forma das células dendríticas e fazem com que estas disparam uma resposta inflamatória na presença da gliadina (responsável pela alergía ao glúten), porém a presença de B. longum ES1 não dá lugar a mudanças na morfologia e diminui a atividade inflamatória, dando mesmo origem à síntese de alguns compostos com atividade anti-inflamatória. Em relação ao tema da diabetes e esclerose múltipla se há que dar razão ao escritor do referido artigo. O leite está associada com um maior risco de diabetes Tipo I (7, 8), no entanto há que ter cuidado com isso, isso não é por acaso, ou seja, beber leite não vai produzir diabetes tipo I, mas se pode aumentar a probabilidade de sufrirla. Não obstante, o consumo de leite também se relaciona com a prevenção da síndrome metabólica(9) ajudando a prevenir a obesidade, e, portanto, diabetes. Falso, o leite não só não "tampe" as artérias através de níveis elevados de colesterol (cujo mito sobre esta relação falarei outro dia). As evidências científicas demonstram que o leite ajuda a melhorar os níveis de colesterol, mas, se é verdade que isto é conseguido de forma mais eficaz através do iogurte (10). Também é falso que as variações são diferentes em pessoas idosas. Tal como observamos no presente estudo, observou-se em mais de 200 mulheres entre os 55 e os 85 anos melhoraram a sua pressão arterial sem alterar de forma significativa os níveis de colesterol, embora este último parâmetro é questionável, já que outros estudos têm demonstrado uma redução de quase 10% no colesterol LDL(12) Certo, mas cabe dizer que esta afirmação é baseada em estudos observacionais e não através de estudos experimentais, pelo que há que mantê-lo no ar, já que não existe nenhuma evidência científica de uma relação direta entre o acne e o consumo de lácteos. Esta provavelmente é a afirmação que mais vezes terei ouvido dizer às pessoas. Para começar não existe nenhuma relação entre o consumo de lácteos e o aumento da probabilidade de câncer. Estudos recentes têm demonstrado que, após a revisão de 40 estudos de controle, não há relação entre o consumo de lácteos e o câncer de mama (13). Inclusive, como podemos observar no trabalho de McCullough, no qual quase 70.000 mulheres participaram, observou-se uma ligeira diminuição do risco de cancro de mama em aquelas que consumiram mais cálcio(14). No caso de câncer de próstata, o resultado é semelhante. Talvez o estudo que mais reflete este mito seja o da European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition, na qual quase 150.000 homens participaram. Nesta observou-se que a gordura da dieta não tem relação com o aparecimento de câncer de próstata, desmistificando outro dos pontos do artigo em que se fala do dano da gordura que tem leite.(15) Finalmente nos encontramos com o câncer de ovário em mulheres. Mais uma vez reflecte a incoerência de tal afirmação através da análise de Genkinger em 2009, depois de 14 estudos, onde participaram mais de 500.000 mulheres, dando como resultado a NÃO associação dos lacticínios com o câncer de ovário (16). Se é verdade e de grande interesse, que se viu aumentado ligeiramente o risco em pessoas que tomam 3 ou mais porções de produtos lácteos por dia. Admito que durante uma epoca estava de acordo com esta afirmação, felizmente, ou infelizmente para alguns, tive que retificar depois de ver as evidências. Os estudos ou de meta-análise demonstram que a ingestão de laticínios aumenta a mineralização do osso (17), sem ocorrer um ganho de peso devido à gordura do leite (18). Enquanto isso, outros derivados, como o queijo cottage, se parece ter um efeito negativo sobre a saúde dos ossos (19), por isso que podemos dizer que, ao menos em lácteas e iogurtes a evidência demonstra não colocar em risco a saúde dos ossos. Como na maioria dos casos que falamos sobre comida, eu acho que nós nos encontramos mais uma vez com "a dose faz o veneno", onde um modesto aporte de laticínios e derivados não irá influenciar de forma negativa na nossa saúde, no entanto, e devido ao tratamento atual para as vacas ou os processos utilizados, não posso dar certeza de que um consumo habitual ou maior do que o da média possa ser seguro para a nossa saúde. É óbvio que o meio pelo qual obtemos o leite tem sido alterado ao igual que a alimentação do ruminante(claro exemplo é a baixa presença de AGE em nossa leite atual), decaindo a qualidade do lacteo. Devemos evitar cair na facilidade de culpar o animal por produzir um alimento saudável, e começar a culpar a forma de obtê-lo. Um abraço a todos.